O vira-lata da rainha que ninguém enxerga

Cachorros da Rainha

                                                                Cachorros nobres da rainha.

Nunca apareci em público e muito menos fui estampado nas capas dos tabloides, como os amigos Fergus e Muick. Estava andando em meu passeio solitário e despreocupado pelas ruas de Londres, quando um carro de luxo parou e me acolheu. No banco de trás havia uma senhora simpática que passou as mãos em mim com luvas luxuosas e me levou até um palácio que eu só avistava da rua, com aqueles guardas engraçados na frente, que vira e mexe faziam uma marcha esquisita.

Saindo do carro daquela velha bondosa fui diretamente para o canil do palácio, onde tomei um delicioso banho (até cachorro adora esta água, rs..) e mais de cinco vassalos me passaram produtos e me deixaram muito cheiroso. Logo em seguida fui direcionado para um espaço onde pude conhecer outros amigos de raças bastante nobres. Conheci vários cães descendentes diretos da famosa Susan, que foi o primeiro cão da rainha presenteada em 1944, no seu aniversário de 18 anos.

Susan era a principal musa daquele canil, sendo reverenciada por todos, e a sua linhagem se sentia os proprietários daquele luxuoso canil. Cheguei a conhecer o Fergus, um cachorrinho simpático da raça corgi, que faleceu, apenas, com 5 meses de idade. Seu nome era em homenagem a Fergus Bowes-Lyon, tio da rainha, que acabou sendo morto durante a Primeira Guerra Mundial. Todos no canil comentavam que este luto devastou a majestade.

Cachorros da Rainha

                        Casamento real ao qual não fui convidado.

Ah, me esqueci. Quando a rainha me pegou no carro fui batizado de Lionel, em homenagem ao fonoaudiólogo Lionel Logue, que ajudou o seu pai, rei Jorge VI, de uma gagueira que o impedia de falar em público. Meus amigos de pedigree comentaram que existe até um filme premiado com Oscar contando esta história. Eu fiquei muito orgulhoso, pois nunca tive um dono e sempre fui chutado pelas ruas londrinas comendo e dormindo de esmolas em esmolas, de cidadãos ingleses benevolentes.

Circulava boatos (e inglês adora fofocar sobre a nobreza, rs..) de que no ano de 2015, a rainha não teria mais pets, pois havia parado de reproduzir a raça que havia criado, a dorgis, mistura de corgi com dachsund. Seu medo residia no abandono do canil por parte de seus herdeiros, no momento que ela falecesse. Porém, tudo não passava de simples galhofa britânica, sendo que depois de mim, a rainha adotou muitos outros cães. Aquele espaço enorme deveria abrigar uns 30 companheiros. Contudo, o único vira-lata era eu. 

O sumido da corte

Vira lata da rainha

                                                                         Das ruas ao palácio.

Não posso reclamar da minha vida neste castelo. Porém, minha vida se resume ao enorme canil onde consigo brincar, pular, me higienizar e comer alimentos que eu jamais sonharia. Nem a xepa luxuosa das mansões de Chelsea, onde eu vivia estourando os sacos de lixo, conseguia atingir o nível e quantidade do cardápio oferecido no palácio. Porém, minha presença fora da quadra do canil é extremamente proibida, pois a rainha só pode ser vista ou fotografada com cachorros de pedigree. Ela até gosta de mim. Seus adoráveis netos até brincam comigo, mas não passa disso.

Ninguém sabe da minha existência, mas quando vivia pelas ruas de Londres também era um completo desconhecido. Quando as pessoas me observavam era pra chutar ou doar resto de comida por dó. Meu nome de mendigo era Totó. Todos falavam: vem cá Totó, sai pra lá Totó, de onde é este Totó? Não posso reclamar, pois meus amigos nobres me tratam muito bem e brincam comigo. Mesmo os mais esnobes, que são os preferidos da realeza, que participam de todos os eventos e banquetes reais.

Mesmo sendo um completo obscuro, tenho muito que agradecer a esta velhota e torcer muito para ela não falecer. Os outros devem ser mantidos, mas eu com toda certeza,, serei o primeiro a ganhar os portões de saída do palácio. Deus salve a rainha!

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